10.7.09

Essas coisas acontecem


Edgar e Normam acabavam de comprar quatro ingressos. Sessão das nove. Esperavam por Gilda e Zilda. Irmãs; eram casadas com os dois. 36 anos de casados, os quatro - não entre si, lógico! -. As duas ainda no trânsito, os dois na porta do cinema. Ainda faltava algum tempo para o início do filme. Pelo menos era o que demonstrava a despreocupação de Norman ao olhar no relógio. Devia existir um motivo pra essa situação. Vários, pode apostar. Mas, supondo que os dois trabalhassem ali por perto e morassem do lado oposto daquele endereço, era uma boa e simples explicação. Pessoas chegam ao cinema. Forma-se uma fila. Duas; a outra na bomboniere. Uma mulher atravessa todo o salão, em direção a sala. Edgar levanta os olhos e acompanha a mulher, como uma sombra. Normam percebe. “Se eu quisesse, me apaixonaria por uma dessas”, revela Edgar. Norman faz um gesto de rejeição, vira as costas, dá um passo, acende um cigarro e volta. “Tu vais-me dizer que te apaixonastes por ela, num instante? E os teus 36 anos com a Gilda? Tu ficaste doido? Elas vindo pra cá?”. “Vê bem, Normam, eu disse ‘se quisesse’... Paixão é querer. Basta os dois quererem. Para com essa besteira de que a “coisa” acontece”. Quando Normam ainda arrumava as idéias, Gilda e Zilda entram, e vão em direção aos dois, que as recebem com beijos, abraços e eu te amo e eu também. Edgar apaga o cigarro, como se esmagasse uma barata.
(Bina Jares)

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