6.11.08

Me & Mari Joe




A pacata Billin não lembra a última vez que a cidade esteve tão quente. 
Os pouco mais de 14 mil habitantes estranharam. Eu estranhei. 
Não era à toa que estava ali, jogado numa cama, em meio a travesseiros 
espaciais e debaixo de um ventilador de teto. Vermelho. Um calor incômodo, 
como a buzina de um fusca antigo. Infernal. Da janela dá pra ver Mari Joe, 
atrapalhando o trânsito, acenando, buzinando sem parar. 
“Hei, baby... tira esses pijamas ridículos, põe uma sunga e vambora pra praia?”. 
Num fusca vermelho. Um calor infernal. Umas latas de Coca-cola. “Não, cerveja, não!”. 
Concordo, e em meia hora a saída da cidade estampava-se como uma ploter no vidro 
dianteiro do fusquinha. Mari Joe - é assim que ela gosta de ser chamada -, mete a 
mão por baixo do painel do carro e tira um cigarro feito à mão. A mesma mão que 
coloca Fashion Nuget pra rolar no som. A fumaça envolve, relaxa, o vento entra fácil 
pelo “morcego”. “Lembra de Daria?”. Ta tocando. “Eu sei... mas lembra de Daria da MTV?”. 
Ah, claro que lembro. “É isso, baby... vamos passar esse calor no mar... num mar 
de lembranças. Selecionei as melhores”. Pronto, Mari Joe chapou. 
O viaduto de Tree’s Coconuts se aproxima do fusquinha. O olhinho pequeno a denunciava. 
Mari, me escuta. “Mari é o cacete... Mari Joe. Vai, me chama de Mari Joe!”. 
Ok, Mari Joe... Escute: cigarrinho, Coca-cola, Cake, Marlboro... 
Até aí, tudo bem... Não vamos mexer nesse baú, vai. O fusquinha vermelho reduz, 
toma o acostamento e pára. “Preciso fazer xixi, urgente!”. Mari Joe apanha um pacote 
lenços umedecidos, no porta-luvas, e sai em direção ao mato. “Já volto, belezinha.”. 
Resolvo me esticar do lado de fora do carro. “...when you sleep… do they tremble on 
the edge of the bed, or do you fold them neatly by your head, do they clench like 
claws against your own skin; when you're living your day al over again.” 
Prolonging the Magic. O céu, as nuvens. As nuvens caminham, mudam de forma, 
abrem passagem na nossa mente infantil e se vão. Sempre mudando de forma. 
Ah, quer saber, concordo com Mari Joe quando diz que odeia gente pronta. 
Por falar no diabo... Olha ele aí. 
“Serviço” pronto, entra no fusquinha, põe o cinto, não me olha, liga a seta para a 
esquerda, olha para um lado e outro da pista e retorna, em direção a Billin. 
Ué, não íamos à praia. O que aconteceu? “Cara, fiz xixi num sapo... dá azar!” 
Meu Deus, penso comigo, Carl Sagan deve estar se contorcendo no túmulo. 
Mari Joe tira o Cake; põe Rasputina, me olha, com aqueles olhinhos denunciantes 
e diz: “Tem um lugarzinho debaixo daquele ventilador?”


Um comentário:

Anônimo disse...

sensacional!!!!
segundo o Houaiss:
n adjetivo de dois gêneros
1 relativo a sensação
2 que causa sensação, que produz grande emoção
Ex.: fez uma revelação s.
3 fora de série; maravilhoso, espetacular; extraordinário, surpreendente
Ex.: uma peça s.