17.10.08

Dos Arquivos de um defunto

(Colt, bem antes de morrer. Treinou para essa foto anos a fio. Quando conseguiu não voltou mais a posição normal)

Quando a coisa engrossa só os "grosso se coça"

Estrelando:
Colt Silvers, como O Intrépido Jornalista

Super Estrelando:
Antônio Lizardo, como O Publicitário

Super Mega Estrelando:
(Censurado), como A Socialite Esfomeada

Super Hiper Mega Estrelando:
A Famosa Professora de dança, como O Poodle que Caiu de Cara no Asfalto


"Bass! How low can you go?!", esbraveja Chuck D, líder do Public
Enemy, nos fones do meu discman enquanto vou andando do trabalho até a
casa de Antônio, publicitário e amigo de longa data. 
É verdade, o quão
baixo podemos chegar quando o assunto é dinheiro, prazer ou status?
Só que, como diria meu querido Tio Janari, "a língua fala mas o c...
paga". Então, o fato é que mal chego à casa de Antônio e ele vai logo
me avisando que tem duas credenciais VIPs para uma convenção de donos
de supermercado e que eu iria com ele. Quer eu quisesse, quer não.

- Porra, cara! O que eu vou fazer em uma convenção de donos de supermercado?!
- Vai por mim. Tu vais te divertir um bocado.
- Divertir??? Putamerda.
- Te cala e entra aí, diz Antônio me empurrando para dentro do carro.

E lá vamos nós, rumo a tal convenção. Logo na entrada, uma mulher, que
parece ter sido maquiada por alguém com Mal de Parkinson, passa um
leitor de códigos de barra no meu crachá. Verificada a sua
autenticidade, ela me deseja uma "boa noite" e me manda entrar. Putz,
quem seria idiota o suficiente para se dar ao trabalho de falsificar
uma credencial para de uma convenção de donos de supermercado?

De onde estou, o que vejo são cubículos de vidro e eucatex montados
lado a lado, todos decorados com os produtos das marcas presentes à
convenção. Na entrada de cada um, duas ou três mulheres - todas
impressionantemente acima do peso e com os cabelos alisados - e um
infeliz de terno sorrindo para qualquer um que chegasse perto. Que
coisa, um lugar como esse, onde o calor chega às raias do
insuportável, abriga uma legião de homens e mulheres enfiados em
ternos pretos, vestidos de noite e casacos de couro (!). Eles,
encharcados de suor. Elas, com a maquiagem rachando, como uma parede
onde a chuva lavou todo o reboco.

Mas, ao que parece, o lance aqui é aproximar os produtos do consumidor
e dos donos de supermercado. Apesar de não ser dono de nada sou
consumidor. Então, vamos tentar a aproximação.

A primeira parada é no stand de uma fábrica de massas. Faz um calor
dos infernos e um bando de esfomeados se empurram em frente a um
balcão. Uma senhora com cara de irmã carmelita distribui uns biscoitos
que não tive coragem de comer e um tiozinho nos serve de macarrão à
bolonhesa. Decido abrir caminho e dou uma cotovelada em uma gorda, que
cai por cima de uma mesa onde três engravatados fazem pose. E assim
chego até o tiozinho e me sirvo de uma porção generosa de macarrão. O
calor aumenta e é engracado ver o velhote suando em bicas em cima do
molho. Quem liga? É de graça não é? Preciso comer rápido, pois a gorda
já se levantou e me olha com sede de vingança.

Eu e Antônio não conseguimos segurar o riso. Com cinco minutos de
feira já deu pra sacar que tudo não passa de uma grande lambança. Quem
não oferece comida ou bebida grátis, dança (e até rimou). É por isso
que os stands de empresas de caixas registradoras, etiquetadoras e
máquinas de refrigeração estão às moscas. Se eu fosse eles, no próximo
ano botava umas gostosas fazendo strip-tease em cima da máquina de
fazer gelo, só pra compensar a falta de uma boca-livre decente.

É impressionante como o ser humano é capaz de perder a compostura por
tão pouco. Ao chegar ao stand de uma fábrica de biscoitos vejo três
conhecidas socialites aos berros pedindo uns sacos de salgadinho de
milho. O recepcionista dá um saco para cada. Mas elas querem mais.
Pedem mais. E outro. E mais outro. O recepcionista, já meio sem-graça,
finge que não está ouvindo. Mas elas conseguem gritar ainda mais alto
e ganham mais um saco. Fico parado olhando aquela presepada e começo a
me perguntar porque três mulheres bem de vida precisariam mendigar uns
sacos de salgadinho de milho.

Enquanto ia pondo seus sacos de salgadinho na bolsa, uma das
socialites percebe que eu a observo. Sem jeito, olha para mim e tenta
se explicar.

- É para o Henriquinho, sabe? Meu filho é doido por isso...

O boato que rola é que o stand de frios é o canal, pois a empresa
montou um mini-restaurante onde está rolando, como diria o Nélson
Shananan, os mais extravagantes acepipes. Bebemos uns chopes em um bar
montado no centro do evento, comemos linguiça frita e rumanos para lá.
O lugar está lotado e não podemos entrar. Tento argumentar com a
recepcionista dizendo que moro em Curuçá, que sou dono do Mercadinho
Confiança e quero provar alguns produtos. Se gostar, fecho negócio na
hora. Nada feito, ela me manda voltar dentro de meia-hora.

Quem vem lá?

É O Frango Gigante!

Opa, peraí... O Frango Gigante?

Caralho, isso não é uma feira. É uma bad trip de LSD. À minha frente,
vejo um frango gigante se abanando com um leque e conversando
animadamente com uma xícara amarela. De vez em quando, a xícara dá uns
pulinhos e rodopia ao redor do frango. Ou então, tenta animar algumas
das poucas crianças presentes ao evento. Estas, evidentemente, saem
correndo ou começam a chorar. Pobre xícara. Imagino o quanto ela deve
ralar para sobreviver neste mundo cruel.

Mais dois passos e um Chico Bento anão passa rente aos meus joelhos e
um rinoceronte cor-de-rosa me dá um saco de balas de hortelã. A essa
altura, nada mais me impressiona nessa incrível viagem
gastronômico/lisérgica onde é possível ter visões sem por na língua um
microponto de ácido sequer. Quer dizer, menos A Famosa Professora de
Balé que, de tanta maquiagem e plástica, ficou igual a um poodle que
caiu de cara no asfalto. Uma mistura de Freddy Krueger com Doutor Fu
Manchu, se é que vocês me entendem. O cabelo já não é nem mais loiro,
e sim um amarelo hepático e sem vida. Os olhos são tão esticados que
ela deve ver um mundo por uma perspectiva totalmente diferente do
resto dos seres humanos normais. Isso sem falar da boca, que parece
não se fechar nunca, presa que está aquele sorriso eterno. Não sei o
que ela faz ali, mas não resisto e começo a rir na sua frente. Ela,
óbvio, não entende nada e me olha feio.

Mas não é hora para digressões, pois estou prestes a passar por uma
das situações mais difíceis da minha vida.

Pausa dramática...

"Colt", diz Antônio, "você precisa provar esses testículos de boi..."

(2001)

"A boa ficção é de longe mais verdadeira do 
que qualquer tipo de jornalismo"
William Faulkner


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