20.7.08

Sabrina e o pêssego


Sabrina, nove anos.
Meio vesga.
Uma surra por dia.
Bonitinha; indiferente:
Mãe tem pé de macarrão, mamãe?
E tome tapa, murro, beliscão.
Mamãe por que que sai fumaça do gelo, heim mamãe?
Pontapé, soco no olho, cascudão.
Ô mamãe por que que índio não tem chulé?
Carraspana, trinco, safanão.

Um dia Sabrina se levanta mais do que costume.
Pega um dedal na máquina de costura de sua mãe.
Coloca no dedal um pequeno caroço de pêssego.
Enche-o com água, embrulha tudo numa folha branca e sai.
Ela sai.
Sabrina vai até um terreno baldio, próximo de sua casa.
E enterra o embrulho numa cova de 15 centrímetros.
Rega bem e vai para casa.

Durante meses, todos os dias
Sabrina continua na obstinada lida de regar o local do plantio.
Ela rega.
Agora, Sabrina já rega uma árvore frondosa e bela.
Vendo que o vegetal já estava vigoroso,
ela fica um tempo sem ir ao local.

Passados uns seis meses,
a menina Sabrina volta para ver a árvore
e tem uma grata surpresa.
Corre em busca de sua mãe,
para que ela também venha presenciar o fato.

Dona Zuleica, era esse o nome da mamãe de Sabrina,
lavava roupa ouvindo um antigo sucesso do Roupa Nova.

Dá um surra rapidinha na filha
e corre para o local enxugando a mão no avental.
Lá chegando, Dona Zuleica olha para a árvore
e tem um súbito desmaio.

Em segundos, volta a si e fica olhando,
custando a crer no que via.

Uma árvore carregada de latas de pêssego em calda.

No rótulo claramente se lia:
Pêssego em Calda Santa Sabrina.

(Premê)

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