25.6.08

Velho Lawrence

Nunca perguntei como ele veio parar por aqui. O certo é que eu tinha lá os meus vinte e poucos anos; ele já com uns cinqüenta e muitos. Usava um bigodão branco, manchado de nicotina. Fumava pelos cotovelos. Velho Lawrence. Um inglês diretor de arte. Conheci o velho na Mendes. Cerveja era com ele. Ilustrador de mão cheia. Alguns truques, com canetinha Design, aprendi com ele. Não consigo fazer no Photoshop. Nunquinha.

Falava um português arrastado - talvez o peso fosse uma âncora tatuada num dos pulsos.
Era meu aniversário. Era praxe o bolo “lá embaixo”, às seis em ponto. Canta parabéns. Come o bolo e de volta à rotina. Lawrence se aproxima e diz que tinha aprendido a gostar de muita coisa que eu ouvia enquanto fingia que trabalhava. Fiquei surpreso. Do que um velho hooligan gostaria daquilo, que se fazia na terra dele, escutado do meu sonzinho? Sabe lá.
Virou-se e disse:
- Olhe, eu possa ser uma burro, mas desse Lawrence aqui eu gostar um bocado.
E me deu um poema do outro Lawrence, o Ferlinghetti. Que por acaso, o que me fez lembrar dessa história, encontrei hoje, sem querer, revirando os pertences, rumo a mudanças.

E o velho amigo Lawrence, por onde anda?
O do Ferlighetti vai abaixo:


Café Notre Dame

Uma espécie de trauma sexual
prende um casal abismado
Ele está segurando as duas mãos dela
nas suas
Ela está beijando as mãos dele
Estão olhando-se
nos olhos
de muito perto
Ela tem um casaco de peles
feito duma centena de coelhos correndo
Ele
tem um casaco clássico sombrio
e calças cinza-de-pardo
Agora estão a examinar as palmas
das mãos um do outro
como se fossem mapas de Paris
ou do mundo
como se estivessem à procura do Metrô
que os levasse juntos
através dos caminhos subterrâneos
através das “estações do desejo”
até ao terminal do amor
até às portas da cidade-luz
É um caso sem saída
e estão perdidos
nas linhas cruzadas
das suas palmas enlaçadas
suas linhas de cabeça e linhas de coração
suas linhas de sorte e linhas de vida
ilegíveis e misturadas
no mons veneris
da sua paixão.

(Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti. Photo, Ann Charters.)





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