29.4.08

Assombração


(foto do blog viadupla.weblog.com.pt)




Na sala tem uma girafa.

Um anão de cimento –

um pedido de perdão.

E um espelho na parede reflete

o vazio.

No meio um sofá.

Na parede um verde. Feio.

No pé da porta um tapete de vaca.

Uma TV, um DVD, um porta-retratos

sem retratos.

Apenas um bebê, o pai, a mãe,

numa foto envelhecida.

Pela porta de vidro dá pra ver os fantasmas.

17.4.08

Universo paralelo

Porra, me lembro do dia em que aceitei um emprego na Philco. Assessor de propaganda. Era uma função onde a gente, através de visitas aos revendedores da região norte e parte do nordeste, anotava o que um diretor, ou chefe, sei lá, de compras nos falava de como se comportavam os clientes daquela loja. Nos reuníamos em SP, pelo menos, uma vez por mês - e eram generosos: nos davam uma semana de SP.
Na minha primeira viagem à SP pela Philco, para a primeira reunião, resolvi que deveria maneirar nas indumentárias.
Pensei: Quanto mais simples, melhor. Então a fórmula era jeans, All-Star e uma camiseta sem nada escrito. Se bem que veio a idéia de que a camiseta era simples além da conta. O que seria mais sério? Porra, uma polo. Vermelha. HAHAHAHHAHAH.
Os diretores e chefes e veteranos esperavam pelos novatos. Eu e mais três. Cheguei atrasado, só pra variar; os três já tinham chegado. Fui percebendo a roupa de todos. Paletó.
Eu tive a sensação de fazer cocô na calça. Mas foi só a sensação - que é bem pior; você fica pegando na bunda pra ver se era verdade. Se fizer cocô de verdade, já sabe que a "merda está feita" e relaxa.
Na minha frente, ocupando quase toda a porta dupla, da sala de reunião, uma réplica do Yelt, o homem das neves, sacou?
Era um português - lógico também que tinha sido batizado Manoel - imenso e que tinha sido diretor da Ford nos Estados Unidos durante 30 anos.
Ele sem saber o que falar, apoiou os dois capangas, digo, os dois braços sobre meus ombros e disse:
- Puxa, rapaz... por um momento lembrei da minha adolescência...
A secretaria dele, daquelas paulistanas de 40 anos, meio roliça, completa:
- Fora de linha... (era como se falava na fábrica para os aparelhos ultrapassados)
Seu Manuel virou-se rápido para ela e, meio ríspido, perguntou:
- Você está dizendo que estou fora de linha?
Ao que ela se defende:
- Não é o senhor... é êle! E aponta pra mim.
O português se vira pra mim, sai da frente, aponta o interior da sala e diz:
- Vamos entrando... Seja bem-vindo, Fora da Linha...
E assim foi o tempo que durou.
Descobri em pouco tempo que o portuga se vingava da gente, brasileiros, colocando apelido em todo mundo do departamento.
O meu era bem agradável se um dia fizessem uma chamada.

16.4.08

Fiat UNO

(Foto de Mari Jares)

Jadson é um desses sujeitos que gostam de mostrar seus dotes físicos apenas com gestos. Boçal; Sempre sem blusa, ou quando as veste não tem as mangas.

O cybercafé instalado nos baixos da casa onde mora dá a Jadson um estilo de vida razoável, afinal, quem fatura três mil Reais nestes tempos? Construída à custa do seu primeiro e único trabalho, depois que saiu da PM: Segurança de aparelhagem.

Jadson manteve sob seu arrimo um irmão mais novo. Aos 18, o irmão já era cafetão e motorista de táxi; de onde gerenciava suas “meninas”. Vivia bem razoável também. Caiu fora logo, dos altos do cybercafé. Ninguém sabia ao certo onde morava. Aquele menino sempre foi estranho.

Jadson mantinha pelo irmão certa raiva. Prometia a quem ouvisse que um dia quebraria a cara “daquele filho de uma puta”. Boa coisa não tinha acontecido entre os dois.

Jadson havia mandado a mulher e os filhos pro mês inteiro em Mosqueiro. Era o verdadeiro “solteirão de julho”, e, como tal, vestiu-se, entrou no Fiat Uno, o qual brilhava, depois de um sábado inteiro de dedicação ao carrinho. Deu a partida em busca da aparelhagem onde trabalhara e era “muito amigo do dono”. Deu a partida também em busca de uma “girl” que desse “pra arrastar”. Não foi difícil em baixo de um som ensurdecedor. Jadson avistou Daphne –um dos nomes mais difíceis de montar com aquela cordinha com luzes de Natal, que o pessoal coloca em porta de salão de recepção, sabe?.

Lá do alto, enquanto cumprimentava o DJ que o mal conhecia, avistou aquela garotinha de mini-saia, cabelos pintados de loiros, corpo branco – sem preconceito, mesmo porque Mary, a mulher de Jadson, era, digamos assim, afrodescendente.

Em dois minutos Jadson conseguia gritar algo em seu ouvido. Os dois dançaram. Sempre com a preocupação de que Daphne não suasse – não conseguiria esperar a garota tomar um banho.

Jadson estacionou o Fiat defronte do cybercafé e foi logo apresentando seus negócios – os comerciais – a Daphne. Subiam a escadas, enquanto Jadson, na frente, tirava a blusa e contava dos ladrões que tinha botado pra correr dali.

Ofereceu um Teacher, guardado com um troféu, no mesmo “rack” onde estava depositada uma TV de 32 polegadas, de plasma, comprada em 12 vezes na Yamada.

Daphne aceitou o uísque.

Enquanto Jadson arrumava dois copos com gelo, na cozinha, a garota dos cabelos pintados de loiros, deitava-se no sofá e tirava a calcinha.

Jadson avistou da porta da cozinha o que lhe esperava.

Sentou, mudou de canal várias vezes, falou umas besteiras, enquanto tirava o falso Nike de molinha vermelha. Tirou o jeans cheio de zíperes e partiu de cara para a ação.

Em poucos segundos de amassos, Jadson notou a frieza de Daphne. Resolveu perguntar. Tinha saído de um relacionamento há um ano. E desde lá não tinha se envolvido com ninguém, e de repente estava ali, naquela situação. Nem sequer tinha dinheiro para voltar pra casa. Na promessa de ter o do táxi garantido, Daphne se transformou numa exímia praticante do sexo. Enlouqueceu Jadson.

Acendeu o cigarro da vitória, enquanto a mulher e os filhos vieram-lhe ao pensamento. Fazer aquilo, logo ali, onde Mary sentava todos os dias pra ver a novela. Onde a Mary, também, tinha pegado uns bons amassos. Olhou pra Daphne – a vontade de atirá-la pela janela era imensa -, enquanto vestia a cueca verde limão, e tentando ser “gentil, e “não querendo mandar você embora, mas já é quase duas, acordo cedo”. Os negócios, sabe?”, perguntou, enfiando a mão no bolso do jeans cheio de zipers, quanto. Daphne falou em cem Reais, enquanto ligava pra um rádio táxi. Jadson ficou estático. Cem Reais uma corrida. E agora? Foi os cem da intera das jances aro 17 que ia deixar seu Fiat mais “atraente”.

Jadson se despede na porta dos altos. Dá a desculpa que está só de cuecas, para não leva-la até o portão de entrada. O táxi já está embaixo esperando. Jadson corre até a “sacada” da casa e vê Daphne entrar pela porta da frente, ao lado do motorista.

O táxi “dá o balão”, o motorista põe a cara na janela, olha pra cima e dá um adeusinho pro seu irmão.


10.4.08

Loucos e santos

"Escolho os meus amigos não pela pele nem outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito ou os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero o meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.Não quero só o ombro ou colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e a outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto e velhos para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril." (Oscar Wilde)

4.4.08

Mr. Magoo



Troquei de oftalmologista. Pelo simples fato do cara não ter me reconhecido na musculação. Não é um bom motivo?

1.4.08

Que infantilidade


(Desenho do Calvin)

Tava pensando porque criança gosta de mim. Assim, de cara. É impressionante.

Às vezes penso que é por causa dela, da cara.

Sei lá um misto de caricatura com desenho animado.

O certo é que fui uma criança feliz, com tudo o que tive, principalmente de quem me cercou. Um tio inventor, uma avó religiosa, um avô costureiro, um avô político de interior, uma avó filha de índio, um pai sério por fora e um anjo por dentro, uma mãe anjo por dentro e por fora, 12 tios de um lado mais 13 de outro, quatro irmãs capetas – embora uma delas nem possa ouvir essa palavra. Enfim, foi num tempo sem videogames, sem internet, sem TV, sem celular. Brincar precisava única e exclusivamente da imaginação.

Não, não tem nada a ver com dom. Todo mundo é assim. É como aprender a somar um mais um. Nunca se esquece e sempre se usa.

Sei lá por que motivo as pessoas vão largando, esquecendo que saber um mais um é fundamental pra tudo na vida.

Acho que sempre me recusei a deixar de ser criança.

Porque é legal. É divertido. É ingênuo. Ah, e a ingenuidade tem lá seu valor.

Ser criança é ser espontâneo, engraçado, fazer besteira, se sujar de sorvete – até hoje não sei tomar sorvete de chocolate sem borrar alguma coisa, é perguntar sempre nos primeiros cinco minutos de viagem se “a gente já tá chegando?”, é dar um beijo em alguém do nada, soltar um pum e rir muito disso, é contar uma piada idiota.

O que as pessoas fazem a si mesmas?

O que elas buscam tão longe o que está bem dentro delas? Parece coisa de livro de auto-ajuda. Mas é a mais pura das verdades.

A mais ingênua delas.

Bem, eu queria falar mais um pouco, mas já ta começando mais um capítulo de Padrinhos Mágicos.